terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Psicodelia


Ela comia cérebros.
De vez em quando arrotava lembranças, mas geralmente gostava de engoli-las junto dos pedaços crus das almas. Era café da manhã, almoço e janta. Era cérebro gelado e quentinho, morto e vivo. Ela comia por prazer e em busca dele, sentia dor ao engolir os pedaços mais duros, as lembranças mais fortes, seus olhos ardiam e ela chorava. Era raro isso acontecer, mas vez por outra ela chorava enquanto comia. E isso a fazia enlouquecer e ficar mais faminta, comia novamente.
Achava os cérebros nas ruas. Era um ali, outro deitado em cima do jornal, outro passeando com os cachorros, todos eram iguais, brancos, suculentos, atrativos. Nunca pasou por sua cabeça o que haveria por fora, o que os cobriam, ela só enxergava os cérebros, só via comida. Arrancava um aqui e guardava quando já estava de barriga cheia, comia outro guardado quando a lua batia no meio do céu, procurava enquanto dormia. Sim, era sonâmbula. Sonhava com cérebros, sonhava com sua refeição e ia atrás de experimentá-la.
Já não era mais pecado essa gula desvairada, era cotidiano e tranquilo. Libertador até. Ela havia perdido o paladar anos atrás quando mordeu a língua enquanto devorava um com gosto de amor, estava tão suculento que não percebeu quando o gosto de ferro infectou sua boca e o sangue espremeu-se junto de sua saliva. Foi mórbido e aterrorizante. Perdeu a língua, mas a fome não passou, não matou. a consumiu. Passou a comer cérebros sem senti-los, saboreá-los, sem língua para experimentá-los. Apenas a garganta para engolir aquelas pedaços de vida.
Ela comia cérebros.
Olhou para o cérebro a sua frente, estava simples e um pouco delicado, pulsava, transmitia algo que ela só sentira uma vez, numa remota vida já esquecida, num planeta distante já tão morto que nem remetia lembranças. Na verdade, ela não sentia, esse era o problema. Não sentia vontade comê-lo. Não queria comê-lo. Foi até próximo dele e o cheirou, ainda tinha um bom olfato. O aroma que exalou foi forte, uma mistura de terra molhada e maracujá, as duas coisas de que mais sentia falta.
Estranho, pensou amarga. O que há de tão especial nesse cérebro? O que há de tão repulsivo que não quero comê-lo? Hipocritamente o cérebro a fitou. A cena que se prosseguiu foi rídicula. A presa encarou o predador de um jeito voraz, aproximou-se, deleitou-se por aqueles olhos petrificados e assustados com o puro terror que se seguia, ele era tão úmido e escorregadio como todos os outros, foi penetrando dentro dela, aconchegando-se em seu interior, comendo-a.
Sentiu tanta dor que desmaiou possuída por seu almoço. O sol incidia no céu brilhando arrebatadoramente enquanto ela lembrou-se pela primeira vez de tudo.
Era verão e tudo permanecia tão calmo quanto as borboletas pousadas sobre os vidros dos carros, decorando-os com suas belezas únicas e coloridas. o ar era macio e quente, despejava gotículas de calor sobre os dois adolescentes que se olhavam com sorrisos e carícias por debaixo da mesa, apaixonados e invejáveis. O ar também soprava os cabelos de uma garota que fitava-os, brava, odiando a si próprio por não está na mesa no lugar da loira. Tinha o corpo escuro assim como a alma e havia demorado muito pra poder ser vista pelo menino que agora tinha outra. Seus cabelos pretos que voavam deixou-a com um aspecto diabólico, seu olhar perfurou os adolecentes matando-os em seus pensamentos.
Pegou o prato que estava sobre o balcão, era garçonete, teria que servi-los. O sangue pingava no chão, era um rastro líquido de dor, ódio e ressurreição, vida nova, limpa de sentimentos e pessoas. Cabelos tingidos de vermelho vivo, olhos que saltavam da órbita e nazris que inspirava os gritos que as pessoas davam ao vê-la desmoronar. Um cliente despercebido escorregou no sangue que tinha cheiro de flor e caiu com a cabeça no chão, nitidamente inconciente. Levou as mãos para cabeça e puxou deixando todos aterrorizados. O seu cérebro era tão liso quanto o vestido de cetim da loira que gritou amedrontada, tão áspero como a voz entrecortada do garoto que ela amava: O que diabos é isso?
Estendeu-o sobre prato. Sorriu enquanto todos corriam desesperado pela porta da frente e deixavam um cenário caótico pra trás junto da menina sem cérebro, o garoto petrificado, a loira amedrontada e o cliente inconciente no chão.
Seu almoço meu bem, falou enquanto o forçou a comer seu próprio cérebro.
No chão, ela acordou desvairada. Sentindo-se novamente pútrida e cheia de sentimentos. Conseguia até enxergar as pessoas novamente, havia gente pra todo lado, olhando-a curiosos. Ela agora tinha um cérebro e estava saciada. Não tinha mais fome, voltara a ser a garota de cabelos pretos amarga. Levantou-se, oulhou para o lado e viu. Parou, respirou profundamente e correu ao encontro do menino sentado no chão, com as costas encostadas na parede pichada. Ele chorava tanto que soluçava. Era o garoto da lanchonete, o garoto que ela fizera comer seu cérebro. Sua cabeça estava vazia e sangrava, seus olhos estavam mortos e afogados em lágrimas, sua vida apodrecida. Ele doara o seu cérebro para ela, para saciá-la.
Você me ama?, foi a única coisa que ela pôde dizer para ele. Você me deu seu cérebro porque me ama?
Ele a fitou e ela jurou ter visto algo macabro em seu olhar. Algo tão terrível que ela jamais pode imaginar. Aquele garoto que ela sempre amou, sempre acreditou ser seu futuro tinha uma ânsia demoníaca no olhar que incitava a própria morte.
Nunca, disse rápido e forte. Lhe entreguei meu cerébro pra você sentir a dor da minha reciprocidade, quando você comeu o cérebro da Maria na lanchonete depois de obrigar-me a comer o seu, passei a viver vazio. Sem nada além de mim mesmo, sem ela. Sei que você me ama, mas agora você também vai sentir essse vazio, vai viver sem mim.
Ele correu dali, nostálgico. Acabara de conversar com um cerébro, estaria ele ficando louco? Uma fome macabra o perseguia junto, estava faminto, louco para devorar um... cérebro.
Enquanto o sol se punha, o garoto já guardava sua janta.

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